Os clipes Brasileiros toscos dos anos 80

por Almir Santos

Antes da chegada da MTV ao Brasil, os videoclipes nacionais eram praticamente monopolizados pelo Fantástico para promover os principais lançamentos das gravadoras no horário nobre do programa global. Em Agosto de 1981, a emissora norte-americana começaria uma revolução no conceito de clipes, formato que antes era considerado apenas um meio de divulgação das músicas passou a se tornar parte do entretenimento da indústria musical, tão importante quanto os discos, os shows etc. Artistas como o Duran Duran dominaram o mundo com clipes como “Rio”, “Hungry Like the Wolf” e “Save a Prayer”, dirigidos por Russel Mulcahy. Prince, Madonna e principalmente Michael Jackson, com vídeos do multiplatinado Thriller influenciaram a moda, a dança e o comportamento dos adolescentes do período. Isso fez com que dinossauros consagrados dos anos 70 e 60 aderissem ao “padrão MTV”, o que apresentou David BowieQueenBruce Springsteen entre outros para uma nova geração. No Brasil era o momento do estouro do rock nacional e da cultura jovem. Programas como a Armação Ilimitada, a revista Bizz e o Rock in Rio ajudaram a popularizar o rock brasileiro do período,  gênero que antes vivia à margem da grande mídia ( “roqueiro brasileiro sempre teve cara de bandido”, já dizia Rita Lee),  com o surgimento de nomes como Blitz, Ritchie, Paralamas, Barão Vermelho, RPM dominando as paradas até das rádios mais populares. Mesmo assim,  os videoclipes brazucas não acompanharam esse momento de ascensão

 

 

 

 

Copiando o formato MTV e a figura do VJ, surgiram vários programas de videoclipes nas mais diversas emissoras. Na Gazeta tinha o Realce, apresentado inicialmente pelo argentino Mister Sam, sendo depois substituído por Beto Rivera e o boneco Capivara. O Realce depois se tornaria o Clip Trip. Na Bandeirantes rolava o Super Special, pilotado por Serginho Café. Na Cultura, já rolava o Som Pop muito antes da moda dos clipes, exibindo vídeos clássicos de Beatles, Kiss, Led Zepellin, mas o programa logo passou exibir também os vídeos dos artistas oitentistas gringos. Quem viveu a época lembra como era ver um clipe de “Rádio Pirata”, do RPM logo após um “Radio Ga Ga”, do Queen. Erros de edição, enquadramentos mal feitos, falta de sincronia entre som e imagem, cenas de brigas que mais pareciam vídeos amadores de garotos com uma Super 8 na mão e alguma ideia na cabeça.

O jogo só começaria a virar para o clipe nacional com a chegada da MTV Brasil em Outubro de 1990. As gravadoras começaram  a investir pesado no formato, uma vez que os clipes passariam em alta rotação na emissora e não apenas uma única vez no Fantástico. Hoje é um grande barato dar uma garimpada pelo Youtube vendo vídeos que chegam a ser ótimos de tão ruins e a impressão que fica é a de que se fossem realmente bem produzidos hoje não seriam clássicos, mesmo que toscos.

A própria MTV Brasil criou um programa para “homenagear” os clipes considerados de gosto duvidoso no final dos anos 90, o Piores Clipes do Mundo. Embora não se restringindo ao clipe nacional e muito menos focado só nos anos 80, os vídeos do nosso rock oitentista eram uma constante nas “análises” do apresentador Marcos Mion.

Menção Honrosa: “Pânico”, ótimo vídeo das Mercenárias. Tosco no sentido produzido com baixos recursos, não no sentido “tosquera” da palavra.

Para Saber Mais: “Dias de Luta- O Rock e o Brasil dos anos 80”, livro do jornalista Ricardo Alexandre.

 

 

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