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Paralamas do Sucessso (1986)

Selvagem? (1986) – Paralamas do Sucessso

Por Almir Santos

Em 1986 o rock dominava as paradas de todo o Brasil. Um ano após o Rock in Rio, o segundo álbum dos Paralamas, O Passo do Lui, tinha vendido mais de 200 mil cópias. O caminho natural seria repetir a fórmula de rock básico com uma pitada de reggae /ska na linha do Police e Madness que já havia dado certo. As letras falariam sobre crises existenciais e relacionamentos pessoais , como havia dado certo em “Òculos” e “Meu Erro”. Em seu terceiro trabalho, Herbert, Bi e Barone mergulharam fundo nos ritmos brasileiros, africanos e caribenhos causando um enorme rebuliço em uma cena que havia acabado de tomar o poder. “Alagados”, a primeira faixa de Selvagem? Já chegava com aquela famosa “guitarrinha” típica do carimbó paraense, mas também muito usada na ju ju music africana, artistas que a banda estava ouvindo muito. A música foi inspirada nas favelas que Herbert via e imaginava que aquele povo deveria querer dormir por horas e horas para não acordar para a dura realidade: “Todo dia/ O Sol da manhã vem e lhes desafia/ Tráz do sonho pro mundo quem já não queria/ Palafitas, trapiches, farrapos, filhos da mesma agonia”. Em uma excursão pelo Chile Bi Ribeiro conseguiu arrematar uma coleção de cem discos do continente africano, e ao realizar o sonho de trabalhar com o lendário produtor Liminha, propuseram esse novo desafio. Os Paralamas mostraram que não era preciso seguir somente a cartilha do rock inglês, que o Brasil estava ignorando o Caribe, a América Latina e sua própria raiz. O rock sempre foi antropofágico, mas logo que “Alagados” entrou nas rádios choveram elogios pela coragem de trabalhar com ritmos fora do mainsteam anglo-saxão ao mesmo tempo que jornalistas e fãs encurralavam a banda na parede querendo saber se eles abandonaram o rock. A parceria com Gilberto Gil em “A Novidade” aprofundava a temática das questões sociais. “Melô do Marinheiro” tinha ainda uma citação à tradicional “Marinheiro Só”, em uma homenagem à Clementina de Jesus. Os “negão do Brasil”, como Bi canta baixinho ao fundo em Alagados são referenciados e a cover de Tim Maia, uma das maiores influências da banda surge na versão de “Você”. Duas músicas ressurgem em versão dub, um recurso de mixagem usado na Jamaica, adaptando as músicas para os bailes, são elas “Marujo Dub” e “Teerã Dub”. “Selvagem” é a mais pesada e a que tem mais cara de rock “branco”, com guitarra suja e bateria pesada e na passagem “ e a liberdade cai por terra/ aos pés de um filme de Goddard”, há uma referência á censura do filme Je Vous Salue Marie, do cineasta Jean-Luc Goddard. Os Paralamas exploraram a temática brasileira também no encarte, tirando foto em um bar típico de qualquer quebrada do Brasil. Outra curiosidade é a capa, onde o irmão mais novo de Bi Ribeiro, Pedro, posa de Selvagem. Selvagem?

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