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Os Mutantes (1970)

A Divina Comédia ou Ando Meio Desligado (1970) – Os Mutantes

Por Almir Santos

Em uma época de mudanças constantes, na encruzilhada do final dos loucos anos 60 e o início dos 70, os Mutantes também procuravam se redefinir. O trio paulistano que foi apadrinhado pelo pessoal da Tropicália, que via na figura de Arnaldo, Rita e Sergio a conexão com o rock que derrubava barreiras no primeiro mundo, começava a trilhar seu próprio caminho. A banda estreou em vinil em 68 no disco manifesto Tropicalia ou Panis et Circencis participando de três faixas. No mesmo ano lançaram seu primeiro disco, o homônimo Os Mutantes. Esse é o disco que “os gringos piram”, pois misturava música brasileira e psicodelia, com forte influência de Beatles. Mas era basicamente um disco de gravações de músicas de outros artistas, com composições de Caetano, Gil e Jorge Ben. No ano seguinte, se firmam com Mutantes, ainda dentro do movimento tropicalista. Em A Divina Comédia o espírito sarcástico dos Mutantes ainda está lá, mas os efeitos e orquestrações são deixados um pouco de lado, dando vazão a competência instrumental da banda. Arnaldo dá mais atenção ao teclado, uma vez que o baixo passa a ser executado por Liminha. A banda se torna um quinteto, embora nos créditos ainda apareçam como um trio. Os dois novos membros, o baixista Liminha e o baterista Dinho são oficializados nos trabalhos posteriores , os também fundamentais Jardim Elétrico (1971) e Mutantes e seus Cometas no País do Baurets (1972). O disco já causou polêmica por causa da capa e da contracapa. Uma representação do Inferno, de Dante Aliguieri, com dois Mutantes observando um outro que sai de uma tumba é o cartão de visitas do trabalho. Na contracapa Arnaldo, Rita e Sergio estão tomando café na mesma cama enquanto são observados por Dinho, que também toma café, mas está em pé e vestido de caçador com uma arma. Um dos maiores hits da banda e clássico mundial da psicodelia, “Ando meio desligado”, é a primeira faixa. “Ave lúcifer”, com sua letra hipnótica nos conduz por um cenário que lembra um jardim do éden psicodélico. A tiração de sarro em cima do blues de “O meu refrigerador não funciona” é um pretexto para a banda mostrar seu talento como instrumentistas nos mais de seis minutos de duração da faixa, enquanto Arnaldo tenta “consertar seu refrigerador”. Canções tipicamente Mutantes também estão lá, no clima Jovem Guarda de “Hey boy” e em “Quem tem medo de brincar de amor”. “Desculpe babe” acentua o clima de mudança, nova fase, é o momento de se decidir, ir correndo buscar a glória. Há ainda uma canção da dupla Roberto e Erasmo Carlos, “Preciso urgentemente encontrar um amigo”. A impagável “destruição” do clássico “Chão de estrelas”, de Orestes Barbosa e Silvio Caldas entrou em uma lista internacional de melhores versões de todos os tempos. Divina Comédia termina com duas instrumentais, a inspirada “Haleluia”, com influência de música clássica e canto gregoriano e “Oh! mulher infiel”.

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