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ENTREVISTA: TEMPO SONORO

ENTREVISTA: TEMPO SONORO

Eles se questionam para onde foi o Sol, querem que cada coisa fique em seu lugar e nos convidam a entrar no vendaval pra vida não passar devagar. Um cruzamento eficaz entre o melhor das décadas de 80 e 90 e temos uma pista do que é o Tempo Sonoro.
Formado no já distante começo de 2013 ( se levarmos em conta a velocidade mutante de São Paulo, essa cidade caótica que tanto inspira a banda), por Renato Ranieri (vocal e guitarra), Filipe Flausino (baixo e teclados) e Fabio Gama (bateria), a banda revela seus segredos em um papo exclusivo. Neurônios com Arte chegou a conclusão de que vivemos em um Tempo Sonoro, e esta é a trilha sonora dos dias atuais.

Por Almir Santos

Em primeiro lugar, por que o nome TEMPO SONORO?

Renato- A gente chegou a esse nome após muita discussão. Acho que foi o Fabio quem sugeriu.
Filipe- Porque está na temática de várias músicas. A gente está sempre falando sobre o tempo. Músicas como “Depois”, “Talvez…”. O tempo está sempre presente nas nossas composições.
Renato- A gente está sempre preso à temática do tempo, né?
Fabio – O Renato e o Filipe ficaram bastante relutantes em aceitar que a banda deveria ter dois nomes.
Renato – A gente não queria um nome composto. Eu e o Filipe já viemos de algumas dissidências com bandas com nome composto. Então era um negócio meio traumático.
Fabio- Já eu sempre achei que nome composto é forte, já está na raiz do rock nacional…
Renato- Quando chegou no Tempo Sonoro a gente falou: “Pô, esse nome soa bem”. Acho que rolou alguma coisa tipo Tempo do Som, em algum momento a gente ficou meio que viajando. Coisas como Vale Sonoro, e acabou chegando no Tempo Sonoro mesmo. E acho que quem chegou no nome mesmo foi o Fabio. E aí ficou naquele impasse, e acabou ficando esse nome mesmo.

E a que veio o Tempo Sonoro?

Renato –O Tempo Sonoro veio pra resgatar uma coisa que se perdeu um pouco. A gente se preocupa muito em trabalhar bem as canções, pensar bem em uma letra antes de sair cantando qualquer coisa. É uma banda que não se prende muito a “lala la”, “ie ie ie”, a soluções muito fáceis. Viemos para resgatar coisas dos anos 80 e dos anos 90 também, que nos influenciaram bastante. É uma banda que veio pra isso, mostrar esse rock nacional bacana, que se perdeu aí com o tempo. O rock nacional entrou em umas vertentes meio esquisitas, uns “emos”. Nada contra, mas não é a nossa praia.
Filipe- E o rock, em suas vertentes novas, meio que se perdeu, porque nas décadas de 80 e 90, era uma coisa muito bem trabalhada. E nos anos 2000 ficou uma coisa muito simplista, sem letra. E o rock nacional sempre teve isso. Essa coisa de questionar tudo.
Renato- Falar do dia a dia, de uma forma a questionar o ambiente em volta.
Filipe-Não falar só simplesmente “Eu te amo, meu amor”. Uma coisa mais filosofal.
Renato- Não um bilhetinho de quarta série. Se é pra fazer, faz logo uma carta de amor.
Filipe – Sentimos falta de ouvir um determinado som, porque eu toco com o Renato há dez anos, e a gente sentiu uma necessidade… porque a gente não estava satisfeito com o que rolava na rádio e começamos a fazer nossas músicas.
Renato- Foi um anseio comum.
Fabio – E eu, como baterista, estava sentindo que faltava coragem, nas bandas brasileiras, de fazer um rock de verdade. E o rock desde a sua origem, sempre foi assim. Falta coragem no rock brasileiro de tocar sem medo de ser criticado, sem medo de não ser aceito, entendeu?
Você não pode fazer rock dosando o volume, dosando a força, dosando a música em si. Você tem que extravasar. Acho que o rock é extravagância desde os anos 50.

Vocês falam muito do cenário urbano, positivamente e negativamente. Como essa metrópole caótica influencia no som da banda?

Renato- Viver em São Paulo é um desafio todo dia. Você tem que enfrentar o trânsito e todos esses desafios que você vê em uma passagem curta pela cidade, e ao mesmo tempo você vê várias paisagens inspiradoras. Tudo isso influencia a gente. Muitas estações em um único dia.
Fabio- Ao mesmo tempo, uma diversidade cultural assombrosa. É até polêmico falar isso, mas eu acho que além da diversidade cultural , existe um desnível cultural assombroso. Não é o tipo de coisa que eu considero muito positiva, enquanto cidadão . Existem dois extremos aqui, e às vezes, como na música “A Cidade”, o cara se sente oprimido mesmo. Você está ali dentro de um trem lotado e escuta cada asneira. São pessoas aproveitadoras o tempo todo…
Renato- É aquela coisa de você não conseguir mudar essa condição.
Fabio – Você fica realmente oprimido, porque a grande massa de São Paulo hoje em dia ouve essa diluição do funk. Essa é a realidade.
Renato- E São Paulo ao mesmo tempo em que é assombroso é inspirador. Acho que é inspirador exatamente por isso que o Fabio está falando. É diferente.
Filipe – E essa inspiração você percebe bastante quando se está fora de São Paulo. É engraçado. Quando você vai pra outro Estado que você percebe: “Não, realmente lá é uma correria”. E estando aqui, você não sente que é uma loucura, porque também está sempre correndo. Aqui a gente está sempre atrasado para alguma coisa. Você vai pra outro Estado e diz: “Nossa, como aqui é parado”. Mas não é, São Paulo é que é único, diferente de tudo mesmo. Inspirador mesmo, como disse o Renato.
Renato- Pode até parecer um lugar comum misturar britadeira com guitarra, mas é difícil você não fazer isso também. O lugar, o meio em que você vive acaba influenciando as coisas que você faz, se você vive em um lugar caótico. Por isso que o Tempo Sonoro acaba soando meio caótico às vezes.
Fabio- Até o amor aqui é diferente, é caótico.
Em “Depois”, por exemplo, “Bye Bye Transilvania”, também é mais ou menos uma questão de amor caótico, enfim São Paulo eu definiria como o caos.
Renato- Você de repente vê isso até em outras letras, como em “Nunca se diz Sempre”, que é uma música que fala sobre desperdiçar a vida, porque você acaba desperdiçando sua vida cuidando de coisas que não tem nada a ver com o que você leva a sério mesmo.
Fabio – E no fim de semana você desperdiça o seu tempo em família preocupado com aquele problema. Aí volta a segunda feira, e aquela preocupação lhe toma os dias, e você acaba deixando de viver devido ao dia a dia.

E por falar em cenário caótico, como é apostar em um som autoral nos dias de hoje?

Renato -Isso é bem complicado, a gente leva isso como bandeira. É muito chato, você vê que tem casas que pagam pra uma banda cover, e quem faz som autoral é obrigado a tocar de graça, sendo que você está entretendo da mesma forma. As casas não querem ter trabalho. E as bandas que levam um som autoral entram no meio desse furacão. Mas a gente depende disso, é onde a gente ainda consegue espaço, o Tempo Sonoro não quer apostar pequeno pra ganhar pequeno. A gente quer mostrar o que a gente é capaz de fazer, e não de reproduzir. Reproduzir é fácil, você pega uma partitura, se dedica com seu instrumento… não desmerecendo quem faz isso, não entenda dessa forma. Mas é mais simples do que você criar um som próprio.
Fabio- O que eu vejo hoje em dia é a falta de coragem de se criar música. A dificuldade está em você conseguir uniformizar o seu estilo. Você conseguir fazer músicas que ouvidas aleatoriamente o ouvinte imediatamente identifica como sendo daquele autor. Eu acho isso bastante desafiador, e pelo menos o Tempo Sonoro tem um repertório pra mostrar a que veio. Quando eu entrei, boa parte das músicas já estavam compostas. Mas eu penso que hoje o que desencoraja as pessoas a fazer música própria é a dificuldade de encontrar o seu estilo de composição. E tem que dar a cara a tapa mesmo, tocar uma música e esperar uma vaia…
Filipe- O que desestimula muita banda que está começando é isso. Eu vou tocar o meu Nirvana que todo mundo conhece, ninguém reclama. E composição é treino. Você não vai logo na primeira composição fazer uma “Bohemian Rapsody”. O Queen não fez de cara um clássico como “Bohemian Rapsody”.

Eles estouraram mesmo no quarto disco. Demoraram pra chegar lá.

Filipe – As pessoas não tem essa paciência, essa maturidade. Eu vou continuar persistindo. E muita banda que se diz autoral, quando você vai ver um show deles vê que o set list está cheio de cover.
Renato- A gente já foi em show de banda grande, com música na Malhação, e de repente a gente comentou: “Porque que eles só tocam cover, porque estão tocando Red Hot Chilli Peppers?”. A gente, por exemplo, é bancário, ganha dinheiro como bancário, a gente tem tempo pra fazer música, porque que esses putos que ficam o dia inteiro no estúdio não fazem mais música? E ser autoral é ter coragem e acreditar naquilo que você faz. E hoje você vê programas como o The Voice Brasil, Programa Raul Gil, que exaltam o cover, exaltam o intérprete, o cara que toca bem. E não tem um grande festival que exalte o compositor. Até 1985… em 85 rolou o Festival dos Festivais. Os antigos, na década de 60. Você tinha prêmio para a melhor letra, melhor arranjo. Hoje você vê esse respeito somente em escola de samba, que dá destaque ao samba enredo, por exemplo. É uma mesmice que é sustentada por toda essa coisa que eu te falei. Se eu tocar minha música eu não ganho nada, se eu tocar Iron Maiden me pagam R$ 100,00 reais mais uma cerveja. Então eu vou tocar Iron Maiden. Eu ainda vejo acontecer alguma coisa na MPB atual, Tulipa Ruiz, Marcelo Jeneci.

Quais as influências da banda?

Filipe –Minhas principais influências são do rock nacional dos anos 80, comecei ouvindo e consumindo as bandas desse período. Comprei quase tudo que saiu de Engenheiros do Hawaii, Legião Urbana e RPM. Depois fui diversificando. Hoje ouço muito Beatles, Rush e MPB mineira, ou seja, o pessoal do Clube da Esquina.
Fabio- As bandas que mais me influenciam musicalmente são Nirvana, Silverchair e Foo Fighters. Ainda hoje são minhas bandas favoritas. Não poderia ser diferente. A primeira vez que uma música mexeu comigo de verdade foi em 1996, quando eu recém-re-chegado à cidade grande, fui apresentado por um amigo ao clipe de “Smells Like Teen Spirit”, que ainda na época veiculava regularmente na MTV Brasil. Alguma coisa naquela atmosfera me intrigava. Eu nem sabia o que era o tal grunge, que já havia mesmo acabado, ou o que fazia aquela música ser tão revolucionária. Meu primeiro CD foi logo o ao vivo do Nirvana (From the Muddy Banks of Wishkah), que era uma pauleira só. Aquilo é muito barulhento, mas não há nada nesse mundo que eu tenha escutando mais vezes e mais atentamente do que aquele CD. E conforme eu assistia aos vídeos de shows ao vivo, e clipes, e escutava o CD repetidas vezes por anos a fio, eu sabia que eu não seria nem de perto um baterista de verdade se eu não tocasse “parecido” com o que toca o Dave Grohl. Passei a idolatrá-lo ainda quando nem sabia da existência do Foo Fighters. E hoje ele está num patamar inatingível de talento. Esse cara é e sempre foi meu grande ídolo e influência musical.
Renato- Minhas principais influências estão no rock nacional. Cresci ouvindo Legião, Paralamas, Titãs, entre outros. Esses sons me levaram a querer ter uma banda.

Vocês já tem um tempo de estrada. Gostaria que vocês falassem sobre fatos curiosos, causos da estrada.

Renato- Trabalhar com outras pessoas é legal, porque você vai lidando com cabeças diferentes. Você muitas vezes projeta muito de você no outro. Não é muito diferente de uma pequena empresa, um comércio. Mas as pessoas tem ideias diferentes, gostos diferentes. O mais curioso foi quando a gente participou de um festival em uma grande casa de espetáculos de São Paulo. Nós fizemos uma apresentação que não foi das piores, embora a nossa banda na época não fosse muito homogênea no palco, cada um tinha um estilo muito particular. Você olhava aquilo e parecia que todo mundo era convidado. Parecia que chegou alguém na porta do bar e chamou: “Ei, você toca baixo?”
Filipe- Parecia que todo mundo se juntou naquela noite.
Renato- A banda tinha quatro integrantes, tinha um vocalista, porque na época eu só tocava guitarra. E no final fizemos um show apenas regular, não conseguindo chegar a fase final. E chegou um jurado que se dispôs a dar um feedback. E ele disse: “Vocês ficaram com média 2 nesses quesitos aqui, em uma escala de 0 a 10 . E eu comecei a discutir com o cara: “Tá bom, mas você avaliou o quê?”E o jurado: “Eu avaliei que o seu baixista ri muito. O tempo todo ele fica rindo. Eu não vejo tanta graça assim pra ficar rindo”. “ Mas ele tocou mal?”, eu perguntei. “Não”, respondeu o jurado. Ele disse que me achou concentrado. Eu respondi que era bom, como sou guitarrista…E comentou que o vocalista desafinou e o baterista perdeu o tempo. Eu questionei se por acaso ele havia prestado atenção nas composições…
Filipe- “Você não leu o regulamento?”, nós argumentamos.
Renato- E depois a gente ficou sabendo que a banda que ganhou não foi em algumas apresentações. Você fica falando de política e você vê isso em um ambiente pequeno. A banda que ganhou já tocava em rádios do interior e levou mais público, por isso foi a vencedora. Cartas marcadas, já estava tudo decidido desde o começo. Mas o pior de tudo é ser desclassificado porque o seu baixista ri muito.

E quais os projetos pra 2014?

Renato -O primeiro projeto é um clipe da música “Lembranças”. Continuar participando do Rock the Arts, que é um projeto do Dino, atual vocalista do Golpe de Estado. O Rock the Arts é um coletivo, um projeto super legal. Porque é um projeto aberto, sem cartas marcadas. Você vai assistir a um show, e além de músicos, tem pintores, escultores, desenhistas. Porque São Paulo , como o Fabio falou, é uma cidade que tem uma diversidade que chega a ser assombrosa, então tem tudo a ver. E novidades virão, porque estamos sempre no estúdio.
Filipe- E a gente está pensando a cada dois, três meses lançar um single.
Renato- Uma música nova a cada dois, três meses. É isso.