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ENTREVISTA: SONIA MAIA

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ENTREVISTA: SONIA MAIA

Dando continuidade a série “Bizz – Jornalismo, Causos e Rock and Roll- as entrevistas na íntegra”, a repórter Sonia Maia, que entrevistou muitos dos mais relevantes nomes da cena pop/rock dos anos 80.

por Almir Santos e Marcelo Santos Costa

Como você começou na Bizz? Você na época já tinha três anos de Abril.

Na verdade, eu já estava na Abril há muito tempo. E fui convidada dentro de uma situação favorável. Eles contrataram duas repórteres: a Luisa de Oliveira e eu. E falei pra Luisa: “Você fica com os popstars e eu fico com o underground”.
Estava cursando jornalismo e meu interesse era fazer jornalismo social. E eu via ali um caldeirão, alguma coisa acontecendo e acreditava, muito ingenuamente, que aquele movimento rock poderia mudar o Brasil.
E me interessava em reportar, chamar a atenção para as bandas novas, as bandas iniciantes. Acabei me identificando muito com o punk rock, porque era um movimento com uma crítica social, política. Uma vez quis fazer uma matéria sobre o punk rock. E pedi para uma amiga, a Camila Trajber, me apresentar a alguém que soubesse tudo sobre isso e ela me apresentou ao João Gordo no Madame Satã, que eu frequentava muito na época. E lembro do Gordo me abraçando e desde este dia nunca mais nos largamos. Ficamos amigos de nos vermos constantemente. Aconteceu também com a Lucinha e o Arnaldo Baptista, quando fui entrevistá-lo. Então, o punk rock era um pouco isso. Eu acreditava que o movimento poderia mudar um pouco a faceta, o status quo. Mas tinha aquela coisa de Brasil, né. Por exemplo: skin head negro…Então, obviamente, não mudou nada, tudo continua da mesma forma.

Um fato curioso foi na Bizz nº 6, saiu na seção showbizz, você chegou na redação com um disco da banda francesa Indochine e notaram que lembrava “Rebelde Sem Causa”, do Ultraje. Você lembra disso?

Todo mundo plagiava todo mundo. As bandas nacionais plagiavam as internacionais, porque era uma inspiração. Ontem eu estava comentando com alguns amigos e eles disseram que a primeira geração de rock brasileiro foi a dos anos 80. Porque antes você tinha manifestações – Mutantes, Raul Seixas, apenas alguns nomes. Mas geração mesmo foi a dos anos 80. O Brasil também tem outro problema sério: para uma coisa acontecer hoje eles têm que enterrar o de ontem. E toda aquela cultura, aquelas bandas, um cenário muito rico, simplesmente desapareceram. Você não tem nada arquivado, não tem nenhuma gravadora fazendo a manutenção disso, não tem programas de televisão que retomam essa história. Então volta aquela coisa que eu ouvi e postei no meu blog, um garoto comentando que sempre ouviu dizer que a geração dos anos 80 foi a geração perdida e sem heróis. O mainstream vende muito bem este peixe, porque não interessa que haja bandas como Ratos (de Porão), falando o que está acontecendo. Vai perguntar pra um Restart se sabem quem é Defalla? E estou falando de Defalla, que foi uma banda extremamente significativa. Imagina se eu falar de Julio Reny, talentosíssimo e hit maker, de cair no gosto popular.

Vizyadoc Moe.

Vizyadoc Moe.

Fala um pouco daquele momento, 1985. Você comentou no seu blog que parece que já havia um interesse publicitário em aproveitar aquele momento de rock etc.

A ideia da Bizz foi do Carlos Arruda. Ele era vice-presidente da área de marketing e propaganda da Abril e teve a ideia de fazer a revista e a editora abraçou. Eu fui para o Rock in Rio fazer uma pesquisa, porque eu trabalhava na área de pesquisa de mercado da Abril, e por conta desta pesquisa o Arruda me chamou para ser repórter da Bizz. Eu já cursava jornalismo na PUC. Acredito que a BIZZ foi um desejo do Carlos mesmo. E ele batalhou e conseguiu. Não creio havia muita pesquisa de mercado envolvida: era um título, uma jogada para ver se acontecia. E aí eles lançaram.
É engraçado porque você vem aqui e nós estamos falando, com o Brasil do tamanho que é, de UMA publicação. E na verdade você deveria estar fazendo um trabalho sobre a mídia jovem dos anos 80, dos vários títulos, programas de TV, jornais, fanzines etc…
Naquela época, havia o underground e o mainstream. Não havia o médio mercado. E isso é fatal, porque não tem escada. Não tem como você chegar daqui pra lá, pois não tem a ponte. Depois houve uma divisão dentro da própria Abril. Um dos diretores, o Angelo Rossi, saiu da Abril e criaram a editora Azul. E como o Carlos Arruda estava na esfera do Angelo Rossi, a Bizz foi pra Azul. A partir daí que a coisa começou…Porque para o bem ou para o mal, a Abril é a Abril, né? Você tem um peso, tem investimento. Ainda na Azul, ficou por bastante tempo bem bacana. Creio que saí lá por volta de 1991/92, não me lembro mais. Teve a gerência do André Forastieri, do Otavio Rodrigues. Até aí estava indo muito bem, apesar de terem mudado radicalmente algumas vezes. Esse foi um dos problemas: mudaram demais a Bizz. As revistas que estes novos editores propunham eram geniais, mas eram geniais como outra revista. A Bizz era a Bizz. Acredito deu uma descaracterizada, o que foi fatal em termos de mercado. Acredito que o público não entendeu muito bem. Porque infelizmente o mercado funciona assim. Você tem que mudar, mas manter uma continuidade, como uma Time Out, por exemplo. Faltou mais lastro.

Agora, olhando pra trás, qual foi a importância da Bizz pro mercado musical e pro jornalismo cultural. Qual a herança da Bizz?

Ela conseguiu ser um veículo no qual tantas bandas do mercado nacional e internacional tinham um espaço para divulgação. E era muito bem feita. Os profissionais eram extremamente competentes. Obviamente muitos não concordavam com A,B,C ou D, mas havia uma produção cultural tão rica que teria espaço não só para uma Bizz. Outro problema da Bizz foi que ela era única. Deveria ter Bizz, X, Y, Z, programas de TV, fanzines, tudo aquilo deveria ter se transformado. Mas uma andorinha só não faz verão. Então, a revista teve uma importância, mas foi tão pontual quanto solitária, porque ela não ia conseguir mesmo sobreviver sozinha.

Você também fez algumas matérias históricas com artistas do chamado mainstream. Uma com o Cazuza, que foi capa da Bizz, mais ou menos na mesma época daquela matéria infeliz da Veja.

É, o Cazuza senti que poderia abrir tudo ali (explorar a doença do cantor) e como ninguém sabia de nada, fui contra ele abrir e contar. Porque eu sabia que ele ia se transformar em um mártir por ser o primeiro a se abrir. E pensei: “não, não quero fazer isso. Não, não faço esse tipo de jornalismo. Não vou fazer meu nome em cima disso”. E não fiz, não abri.
Ele até achou estranho. Deve ter pensado: “pô, estou aqui querendo me expor e ela finge que nada está acontecendo”.

Ele querendo ser provocado…

E eu não o provoquei, não fiz nada. Se meus editores lerem esta entrevista podem pensar: “Pô, Sonia, você não agiu como uma jornalista deveria ter agido”. Mas fui lá passar um final de semana com ele. Cazuza me levou para a casa deles em Teresópolis, fiquei em um quarto fantástico, onde passava um riacho por baixo. Tempos depois a Marília Gabriela fez esse papel. “Ah, vai ser bom pra você” (encorajando o cantor a revelar que era positivo). E deu no que deu, né? Foi horroroso o que a Veja fez. Eu acredito que aquela matéria da Veja expressa muito… Não vou dizer que a Veja seja responsável por enterrar a história do rock brasileiro, mas foi sintomático e pontual. Quando a Veja lançou aquela capa, com aquele tom, aproveitando pra dizer que tudo aquilo era um bando de louco desvairado. A partir dali começou um declínio de qualidade, de cobertura, de tudo. Foi se desmantelando. Mas falar mal da Veja hoje? De lá para cá só piorou, né? É impressionante! Não há publicação hoje em dia mais odiada que a Veja. Eles prestam realmente um desserviço ao jornalismo.

Você entrevistou o RPM no auge.

Eu tenho uma admiração e carinho imensos pelo Paulo Ricardo. É uma pessoa muito inteligente, sempre foi muito coerente. E ele foi também um pouco vítima na época, porque ele estava no Olimpo e, de repente, houve aquele episódio com drogas. Enfim, aquelas armações da vida, né? E ele meio que desapareceu por um bom tempo. Se ele fosse um artista dos EUA, Inglaterra, teria sido superprotegido, o colocariam em uma clínica etc. E teriam protegido a obra. Para retomar com tudo quando ele voltassse. O problema é que o Brasil não protege seu produto. O que aconteceu nos anos 80 era para ser visto como produto de exportação, ficando agora bem no jargão do mercado. Mas não é visto desta forma. O capitalismo ainda é muito selvagem por aqui. Nem o capitalismo eles sabem fazer direito. Deveriam ter preservado todos aqueles produtos culturais, e o RPM foi outra vítima dessa política mesmo, que é uma política de elite brasileira. É aquela coisa do escravocrata. Aqui a escravidão permanece, de empregado doméstico que chega cedo e serve o almoço. Enquanto tivermos esse tipo de mentalidade, nada vai mudar. Não existe um investimento na cultura, na manutenção, preservação, documentação. O negócio é o momento. Então, hoje é o RPM, amanhã é o Restart. O pensamento é: “vou matar o RPM pro Restart poder acontecer”. Isso é pura burrice. Você poderia continuar ganhando dinheiro com o RPM e também com o Restart. Isso é muito burro, muito ignorante.

Teve também um Entrevistão com o Raul Seixas.

É! Aconteceu de ser uma das últimas entrevistas dele. Porque, na verdade, tem essas lendas, como se falava também do Arnaldo Baptista. Disseram na Bizz para mim: “não vai entrevistar o Arnaldo não, porque é longe, o cara é louco, vai ser mal pra Bizz etc”. E Arnaldo fala (e falava) coisas sensacionais. E o Raul respondeu a todas as perguntas e saiu uma grande matéria. E aconteceu, eu batalhei, qualquer um que fosse faria, porque ele me recebeu superbem. A Bizz tinha uma importância na época e virou uma matéria clássica.

E o João Gordo?

O Gordo tinha aquele carisma. Notei algo quando ele foi chamado pelo Faustão, na época do Perdidos na Noite, que era gravado no Bixiga. Lembro que parou um cara com Scort na época (era o carro da moda) e gritou “João Gordo! João Gordo!”. E eu falei pra ele: “Gordo, você é um star. Se alguém te descobrir você vai virar coqueluche, um star”. Ele tinha uma empatia, porque é um cara muito inteligente, não é um cara que sabe só disso, ou daquilo. Apesar de vir da periferia, ele tinha uma cultura muito acima da média dos punks que vinham da periferia braba. Eu me lembro de uma época em que a Bizz queria fazer uma edição heavy metal e me puseram para editar. Eu falei: “edição heavy metal tem que chamar o Gordo pra me ajudar, porque ele entende de tudo sobre rock pesado”. E o Gordo chamava a atenção na Abril. E eles meio que proibiram a entrada dele lá. Porque na época era uma coisa muito over. Hoje em dia…E eu fiquei muito raivosa com essa história. Lembro de uma cena, eu colocando o dedo em riste na cara do editor na época, falando que o Gordo iria se tornar um dos maiores popstars do País: “E vocês vão se lembrar deste momento e vão ter que engolir a seco!!!”. E ele acabou se tornando um cara muito representativo.

Na época em que ele foi considerado traidor do movimento, se eu for perguntar pra ele…

Ele vai mandar você tomar no cu.

Você estava do lado dele naquela época?

Nossa, é aquela velha história que eu já falei. No Brasil tinha skin head negro, sabe?

E o Madame Satã e o Carbono, o que você extraia de lá pra Bizz?

Lá eu descobria as bandas novas. Tudo de novo acontecia nesses lugares. E era lá que as bandas que queriam ser descobertas tocavam. Vinham de todo o país. Mas na minha época eram dominados por bandas já “consagradas”: Mercenárias, Smack, Fellini. Teve a época do Napalm também. Legião Urbana vinha fazer shows nestes lugares.

E o Arnaldo Baptista. Foi você que batalhou pra fazer a matéria?

Sim, eu batalhei e desde lá fiquei amiga do casal, nunca mais nos largamos.
O Arnaldo, na época, me diziam : “Ah, ele não fala coisa com coisa, valvulados, energia solar, carro solar, carro elétrico”. Isso na época era loucura, hoje só se fala nisso. Então, você vê quanto à frente de seu tempo ele estava.
E eu trouxe uma entrevista muito boa, tanto que foi publicada. Então você tem que fazer isso mesmo: dizer que vai fazer. Eu achei engraçado, porque recentemente 17 produtores remixaram uma música dele do Let It Bed, a “To Burn or Not to Burn”. E fui levar esse material para o Arnaldo ouvir em Juiz de Fora. Cheguei lá com esse CD, obviamente produzido por uma turma mais nova. E ouvimos também alguns sets do novo disco de Arnaldo, o Esphera. E tem uma música chamada “Colcha de Retalhos”, que é mil vezes mais moderna, mais contemporânea, do que tudo que estava ali naqueles remixes. E ele não ouve coisas novas.

Quando rolou aquele Entrevistão do Renato Russo com o José Augusto Lemos, em que o Renato assumiu a homossexualidade, você ainda estava na Bizz?

Não, não estava. Fiz outra matéria de capa com a Legião, porque toda hora eles eram capa. E sugeri: “Vamos fazer uma coisa diferente, eles contando a história deles etc”. Fiz a entrevista em cima desta pauta, comecei a escrever, levei pro Scot (o José Augusto Lemos) e ele falou: “Nossa, isso é praticamente um livro!!!”. E foi lançada em três edições. Até pouco tempo esta era a única biografia disponível da Legião.

Quando a Bizz voltou em 2005…

Eu não sei de nada. Não li mais a revista….

A Bizz teria chance nessa época digital?

Eu acredito que tem espaço. O Brasil tem uma produção riquíssima, principalmente em Pernambuco e Rio Grande do Sul. E você tem artistas fantásticos. Mas eu trabalharia muito a história: falaria do hoje, mas trazer o histórico dentro do contexto. As editorias seguem muito “o que o público quer”. Nós, na Bizz, os “entendidos”, colocávamos aquilo que achávamos que o público deveria gostar. Óbvio que você não vai fazer uma coisa alienígena. Na capa você vai colocar o que vende, mas não vai dar só o que o público quer no conteúdo. Todo ser humano quer aprender. Hoje em dia no Brasil não consigo encontrar uma revista que me traga alguma coisa nova. Você abria a Bizz e encontrava coisas novas. “Olha, que legal, sobre isso eu nunca ouvi falar”. Você podia não gostar de reggae, mas alguém gosta ou gostará.

Sua opinião sobre os Engenheiros do Hawaii, uma banda que a crítica sempre pegava no pé…

Engenheiros é outro caso típico de tudo que venho falando aqui. Outro dia postei algo deles no Facebook e quase fui apedrejada. Não vou erguer nenhuma bandeira dos Engenheiros, não me presto a esse papel, nem eles precisam disso. Problema do Brasil. Quem perde é o Brasil. O Humberto faz uma poesia muito bem construída, muito bem escrita, um trabalho conceitual fortíssimo. Porque um disco se conecta com o outro, que se conecta com outro, e se você puxar o fio da meada, encontrará uma alegoria tendendo ao infinito. E as pessoas não perceberam isso. Pegaram uma birra dele só porque Humberto fez questão de ser o rebeldezinho e fazer coisas só pra irritar mesmo. Falou coisas que irritou tanto o “Sul Maravilha”, quanto o pessoal do Sul. Ele não fazia parte da “máfia”, porque havia a máfia das grandes gravadoras. Só entrava no pote quem fazia parte do caldeirão. E eles ficaram à parte de tudo. Outro dia estava ouvindo “Ouça o que eu digo, não ouça ninguém”

E o Restart, parece que essa crítica tem um efeito contrário, dá mais mídia…

Não sei, nunca ouvi Restart. Não conheço.

Você faria uma entrevista com eles?

Não, não trabalho mais com isso. Atualmente tem boas coisas novas, mas não gosto de andar pra trás. É uma filosofia minha. Quando eu voltei de Londres, depois de dez anos, falaram pra mim: “Ah, Sonia, escreve sobre rock, escreve uma biografia”. Gente! Eu fiz isso nos anos 80, 90! Já se passaram não sei quantos carnavais! Eu posso até fazer uma coisa ou outra, mas entrevistar Restart, meu bem, estou com 53 anos!

Nem a biografia?

Não, eu não lembro de nada.

Sonia Maia foi repórter da Bizz entre 1985 e o começo dos anos 90. Atualmente é assessora do Arnaldo Baptista.

Almir Santos é editor do Neurônios com Arte e nas horas vagas trabalha em banco.

Marcelo Santos Costa é colaborador do jornal on line É Nosso! (http://www.jornalenosso.com.br/) e nas horas vagas é servidor público municipal.