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ENTREVISTA: REGIS TADEU

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ENTREVISTA: REGIS TADEU

BIZZ- Jornalismo, causos e Rock and Roll- as entrevistas na ínteg

Por Almir Santos e Marcelo Santos Costa

Qual a importância da Bizz para o mercado musical?

Olha só, a importância da Bizz para o mercado musical… O mais importante foi ela ter sido uma formadora de opinião durante grande parte de sua existência. Eu acho inclusive que ela fomentou entre os leitores uma curiosidade em relação a novos sons que eu sinceramente não vi nenhuma publicação similar aqui no Brasil fazer. Então, na minha opinião, essa foi a grande contribuição. Além de ter um caráter informativo muito interessante, ela fez também com que a gente passasse, pelo menos no meu caso, a gostar de música por outros aspectos, que a crítica não ficasse somente limitada a considerar uma música boa ou ruim. Acho que uma grande vantagem da Bizz em relação a outras publicações similares é que ela estimulava a gente a pensar e a tomar uma posição, mesmo que contra aquilo que a gente lia na revista.

Qual a sua opinião em relação aos músicos que não conseguem receber uma crítica irônica, mais sagaz, mais ácida e ficam fazendo o famoso “mimimi” na mídia?

Na verdade eu acho isso uma grande criancice, porque a partir do momento em que o músico lança o seu trabalho na praça, ele tem que ter uma estrutura emocional forte o suficiente para saber que independentemente da qualidade do material, ele está sujeito a levar porrada. Você consegue imaginar o Bono retrucando crítica negativa em relação a um disco do U2? Essa atitude dos músicos aqui do Brasil sempre foi simplesmente patética. Meu amigo, você botou o seu trabalho na rua, botou a tua cara pra bater, você não tem que ficar reclamando da intensidade da porrada.

Com a velocidade de informações na era da internet, não é mais imprescindível esperar aquela revista mensal como na época da Bizz. Qual a saída pra quem ainda quer lançar uma revista focada em cultura pop no mercado?

Eu sou um cara totalmente descrente. Eu trabalhei em revistas voltadas para instrumentistas durante quinze anos. Eu sinceramente sou muito descrente no formato revista nos dias de hoje. Eu até acho que as pessoas ainda precisam de um guia ( eu não estou falando de uma maneira messiânica). Mas eu acho que as pessoas ainda precisam de um roteirinho para que algumas sugestões sejam dadas. Eu mesmo, por exemplo, frequento vários blogs, frequento inclusive sites de publicações e tenho curiosidade de ir atrás de um trabalho de uma banda que eu não conheço. Como fonte de informação, as publicações ainda são muito relevantes. Eu só não acredito no formato revista física, eu acho que esse formato realmente morreu, até porque o mercado publicitário não acredita mais em uma revista musical no Brasil nesses moldes, e caso vocês não saibam, uma revista sem anunciante não consegue sobreviver.

Uma revista como a Bizz teria sobrevida no cenário atual?

Nesse cenário atual eu acredito que a Bizz não sobreviveria, como não sobreviveu na verdade. Mas acho também que ela não sobreviveu por um problema de pautas equivocadas. Faltou uma certa contundência editorial na última vida da Bizz. Na fase antiga, muitas vezes eu lia a Bizz e ficava positivamente indignado com alguma opinião, mas isso é que é o bacana , é forçar você a tomar uma posição. Eu acho que na última encarnação da Bizz ela ficou meio bunda mole. Aquela coisa: “Não somos mais os caras malvados, somos os bonzinhos”. E hoje em dia o segredo do jornalismo sobreviver é ele ser opinativo, e não mais o jornalismo descritivo. Eu não acredito que a Bizz sobreviveria nos dias de hoje.

Parece que na última fase ela atirava para vários lados.

O problema de você atirar para vários lados é que você corre o risco de não acertar nenhum desses alvos. Eu acho que faltou um direcionamento mais contundente na abordagem das pautas. E uma ênfase no caráter opinativo. Isso foi se perdendo com o passar do tempo.

Regis Tadeu é crítico musical. Apresenta os programas Rock Brazuca e Agente 93 na USP fm e é jurado do programa Raul Gil, entre outras atividades.

Almir Santos é editor do Neurônios com Arte e nas horas vagas trabalha em banco.