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Caetano Veloso (1972)

Transa (1972) – Caetano Veloso

Por Almir Santos

Curioso que nem sempre o disco fundamental de um artista é aquele que tem os maiores hits, redefiniu um movimento. E que bom que seja assim. Você não encontra nenhum dos cavalos de batalha dos Rolling Stones em “Exile on Main Street”, por exemplo. No caso de Jagger, Richards e Cia, a banda gravou sua obra-prima exilados na França, pois não podiam voltar para a Inglaterra por problemas com impostos. No mesmo ano de 1972, Caetano estava exilado na terra dos Stones por razões mais nobres, a ditadura militar fez com que Caetano, Gil, Chico, Macalé e tantos outros emigrassem principalmente para o continente europeu. “Transa” é o segundo disco “londrino” de Caetano. O anterior, o homônimo Caetano Veloso (71), foi também produzido pelo inglês Ralph Mace, e contém o clássico “London, London”, regravado pelo RPM, em 1986. Assim, como o anterior, Transa é bilíngue, as letras refletem um clima de saudades da terra natal, o som é duro, cru, rock com ritmos nordestinos, MPB com citações dos Beatles, as letras falam de uma solidão agreste, mas que pode ser traduzida pela dor de estar longe da pátria. “You Don’t Know Me” abre o disco e Caetano parece se apresentar , ao mesmo tempo em que diz no idioma da rainha Elizabeth que os gringos não o conhecem. Ele desabafa em bom português “Nasci lá na Bahia / De mucama com feitor/ O meu pai dormia em cama/ Minha mãe no pisador”. Em “Triste Bahia”, baseado em um poema de Gregório de Matos (1636-1695), crítico de sua época, popularmente conhecido como “Boca do Inferno”, um ritmo que começa arrastado, pontuado por berimbau vai se estendendo, acelerando e nos levando a um transe. Caetano nos remete ao Brasil colônia: “ A ti tocou-te a máquina mercante/ Que em tua larga barra tem entrado/ A mim vem me trocando e tem trocado/ Tanto negócio e tanto negociante”. A mim sempre me veio a imagem de que Caetano queria dizer nas entrelinhas que os militares estavam vendendo o Brasil para o capital internacional. “Nine Out of Ten” nos propicia um passeio pela Londres do início dos anos 70, onde ouvimos do ritmo jamaicano: “ I walk down Portobello Road to the sound of reggae”. O disco resgata ainda “Mora na Filosofia”, samba de Monsueto. “It’s a Long Way” fala do Abaeté e de um famoso quarteto de Liverpool, e a obra maior de Caetano termina com “Neolithic Man” e “Nostalgia”. Transa ficou em décimo lugar em uma lista de 100 melhores discos da MPB da revista Rolling Stone e foi Discoteca Básica da revista Bizz, em uma resenha da jornalista Bia Abramo. Hoje podendo ser entendido por uma conotação sexual, na época transa era uma gíria hippie para viagem, novas sensações. Esse é o convite que faço para quem não conhece esse outro lado de Caetano Veloso, muito além de “Alegria, Alegria” e “Lua de São Jorge”.

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Almireu

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