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Arnaldo Baptista (1974)

Há 40 anos o ex-líder dos Mutantes exorcizava suas angústias pessoais e criava um dos maiores clássicos da música brasileira
Loki? (1974) – Arnaldo Baptista

Por Almir Santos

Não seria surpresa para ninguém que o primeiro disco solo de Arnaldo Baptista teria potencial para se firmar entre um dos mais cultuados do rock nacional, e da música brasileira em geral. O impacto se deu no fato de que não era possível localizar em Loki? o Arnaldo debochado, o eterno adolescente rebelde que se recusava a crescer. Mais do que uma coleção de canções, o trabalho era um desabafo, um grito de socorro de um homem em desespero. A perda de dois amores lançaram o músico em uma encruzilhada naquele ano de 1974. A saída dos Mutantes, após o fracasso da guinada para o rock progressivo, com o abortado O A e o Z, que só saiu em 1992 e o fim do relacionamento com Rita Lee deram o tom, o peso e a angústia contidos no projeto. É claro que não falta um certo deboche, mas pontuado por um cinismo, um ceticismo hilário em relação ao mundo, a constatação de que viver é perigoso, incerto. Gravado sem guitarras, sem nenhum hit em potencial, a gravadora Polygram relutava em lançar o disco, o que só foi possível porque o diretor André Midani percebeu que ali sairia algo impactante para a música brasileira, e isso era mais importante do que o seu apelo comercial. Midani confiou a produção a Roberto Menescal, uma vez que ambos chegaram a um consenso que realizar o álbum seria válido inclusive para a saúde do músico, como uma terapia.
Com exceção de seu irmão Sergio Dias, os demais Mutantes participam de “Loki?”. O baixista Liminha e o baterista Dinho comparecem em quase todas as faixas e Rita Lee faz backing vocal em “Não Estou Nem Aí” e “Vou Me Afundar na Lingerie”. O maestro Rogério Duprat, arranjador das canções dos Mutantes, também colabora em “Ce Tá Pensando Que Eu Sou Loki?” e “Uma Pessoa Só (essa do repertório de O A e o Z)”. Arnaldo se questiona: “Será Que eu Vou Virar Bolor?” E entrega sua vontade de voltar para a Cantareira, onde os Mutantes ensaiavam em uma comunidade hippie, e seu apego ao passado e a vontade de novamente “ter você ao meu lado”. “Te Amo Podes Crer” pode ser definida como uma canção de amor nos tempos do Apocalipse. A carreira solo de Arnaldo seguiu à margem do sucesso comercial. O projeto Arnaldo & Patrulha do Espaço foi cultuadíssimo no underground, mas seus dois discos só foram lançados nos anos 80, de forma independente. No começo dos 80, é lançado, também de forma independente “Singin Alone”, em um momento crítico em que Arnaldo já estava internado em uma ala psiquiátrica do Hospital do Servidor Público de São Paulo. Após uma tentativa de suicídio, passa a morar em Juiz de Fora, com uma antiga fã, Lucinha, sua companheira até hoje. Malandro velho, continua viajando com sua música, pintando seus quadros, e comemorando esse revival pontuado pela chegada do Box com toda a obra dos Mutantes mais um CD de raridades, o relançamento de O A e o Z, e principalmente, pela nova edição de sua obra-prima,” Loki?”, que 40 anos depois, continua inquietante, como todo disco deveria ser.

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Almireu

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