As Copas e a pátria de chuteiras

copa-2018

Por Almir Santos

Já se passaram quase quatro anos do já eterno 7 x1 e lá vamos nós de novo esvaziar as ruas das cidades, lotar os bares, todos em frente a tv testemunhar esse momento único, onde um certo gigante adormecido, também conhecido como Brasil, enfim despertará de sua hibernação para provar mais uma vez que somos os melhores, que somos o país do futebol.

Difícil diagnosticar o motivo desse esporte exercer tamanho fascínio em escala global, vejam só, nem mesmo os Jogos Olímpicos, que reúne trocentas modalidades esportivas tem esse poder de mobilização a nível mundial.

Oficialmente o futebol tem origem inglesa, mas há relatos de que em torno de 2.500  a.C  já era praticado por militares chineses, quando a “bola” era a cabeça de um soldado inimigo.

Embora também conhecido como nobre esporte bretão, o futebol como modernamente conhecemos foi ganhando forma com a criação de suas principais regras pelos esportistas da alta sociedade britânica, mas foi logo se popularizando dentro da massa operária, quando surgiram clubes do chão de fábrica, alguns deles hoje potências mundiais. Como é o caso do Arsenal (1886) e o Manchester United ( 1878), ambos financiados pelas próprias fábricas em que jogavam os operários.  O paulistano Charles Miller, filho de britânicos, foi quem trouxe para o Brasil  as duas primeiras bolas e um livro de regras do esporte, em 1894.

A Inglaterra tentou monopolizar a prática de competições oficiais de futebol, criando as primeiras “Copas do Mundo”, por volta de 1870, disputadas apenas por times ingleses. Os franceses, com a criação da FIFA, em 1904, fundaram a entidade que passaria a organizar as competições oficiais a nível internacional e as verdadeiras Copas do Mundo, daí em diante.

 

Em 1930 enfim foi realizada a primeira Copa, no Uruguai. Antes disso a FIFA reconhecia os campeões olímpicos de futebol os detentores do título mundial. Bicampeã olímpica no período (1924-1928), o Uruguai foi o primeiro país sede. O fato de comemorar o centenário de sua independência também pesou para a escolha.  Com forte influência da diplomacia italiana nos bastidores, o ditador Benito Mussolini conseguiu trazer o segundo mundial para a Itália, utilizando-o como propaganda do fascismo. Seu colega alemão, o também ditador Adolf Hitler, conseguiria o mesmo objetivo organizando os Jogos Olímpicos de 1936, em Berlim. Com o estouro da Segunda Guerra, o quarto mundial só aconteceria em 1950, no Brasil.

Palco do Maracanazzo, a primeira grande tragédia da nossa seleção, eliminada em casa pelo Uruguai.  De acordo com as regras do período, o Brasil ainda jogava pelo empate, mas foi surpreendido por uma celeste olímpica que sabia que tinha que vencer. O clima de já ganhou pode ter colaborado para a derrota, jornalistas já apontavam nossa seleção campeã, o que pode ter provocado um salto alto, mas o que ficou para a história foi o maior silêncio em um estádio da história, cronistas da época afirmavam que após o gol de Gighia era possível ouvir o barulho de uma mosca voando pelo Maracanã calado, incrédulo. Surgia aí o termo “complexo de vira-lata”, cunhado pelo dramaturgo e jornalista Nelson Rodrigues para definir o sentimento de inferioridade que o brasileiro tinha em relação ao seu futebol, e que isso era somente uma extensão do complexo de inferioridade do brasileiro em relação ao mundo, o que impedia o Brasil de ser realmente um grande país. O genial escritor, que também imortalizou diversas peças teatrais é o responsável por termos , crônicas e frases até hoje conhecidas em relação ao cotidiano, política e  futebol, como “ a pátria de chuteiras”.

Esse complexo só seria vencido em 1958, na Suécia, quando a seleção da dupla Pelé e Garrincha encantou o mundo. O Brasil se tornaria enfim, o país do futebol, com o bicampeonato no Chile, em 62.  Com o tri, no México, em 1970, o Brasil conquistaria definitivamente a taça Jules Rimet. Nas Copas seguintes, o vencedor passou a levantar a taça FIFA. Algumas finais foram marcadas por polêmicas e são contestadas até hoje, acirrando as discussões pelas mesas de bar mundo afora. Teria a arbitragem ajudado a Inglaterra, que foi campeã em casa, em 1966? A ditadura militar comprou a Copa de 1978, quando a Argentina precisava vencer o Peru por quatro gols para ir a final, para não ficar de fora e ver o rival Brasil disputando o título em Buenos Aires? O fato é que os hermanos meteram 6 a 0 em uma seleção peruana que se classificou em primeiro lugar no seu grupo. Algumas seleções não foram campeãs mas são mais referenciadas do que muitas que ergueram a taça, como a Hungria de 1954, do craque Puskas, a Holanda de Cruyff de 1974 e a nossa seleção canarinho de Zico, Sócrates, Junior, Falcão e companhia , em 1982. Falta pouco, e que um dia tenhamos a mesma garra e motivação para sermos campeões do mundo em educação e saúde, por exemplo, campeonatos bem mais nobres do que uma mera partida de futebol.

 

Todos os campeões

 

1930 – Uruguai

1934- Itália

1938- Itália

1950- Uruguai

1954- Alemanha

1958- Brasil

1962- Brasil

1966- Inglaterra

1970- Brasil

1974- Alemanha

1978- Argentina

1982- Itália

1986 – Argentina

1990- Alemanha

1994- Brasil

1998- França

2002- Brasil

2006- Itália

2010- Espanha

2014- Alemanha

 

 

Uma tabelinha musical

 

Alguns hinos foram feitos para comemorar as vitórias do Brasil em Mundiais e são lembrados até hoje, como “ A Taça do Mundo é Nossa”, para os primeiros campeões em 1958. A Copa do México, em 1970, foi o ano da primeira transmissão ao vivo de uma Copa para o Brasil. “Pra Frente Brasil” é cantada até hoje. Na época era odiada pelos que combatiam o governo militar, muitos brasileiros na época torciam até para o Brasil não ser campeão, para não aderir ao ufanismo da ditadura vigente na época.

Não podemos deixar de citar alguns hinos não oficiais como “Voa Canarinho, Voa”, música do craque Júnior, que também integrou a seleção de 1982, e “ Deixa a Vida Me Levar”, de Zeca Pagodinho, adotada pela seleção de 2002.  Muitos artistas tem até seus times de pelada, o mais famoso é o Politheama, de Chico Buarque e os Novos Baianos, quando moravam em uma comunidade no Rio também tinham o seu escrete, e deram o título de seu terceiro trabalho de estúdio de Novos Baianos Futebol Clube .

Provavelmente Jorge Ben Jor seja o campeão de composições sobre futebol, destaque para “Umbabarauma”, “Fio Maravilha” e “Cadê o Pênalti”. “Flamengão”, samba-rock do cantor Bebeto é quase um hino não oficial do time carioca. Os mineiros do Skank também marcaram um golaço com “É Uma Partida de Futebol”.

Em “Balada nº 7” Moacir Franco homenageia o anjo das pernas tortas, Mané Garrincha, que em 1970 já começava a perder a guerra contra o alcoolismo. Se Pelé é Rei,  para os franceses do Mano Negra o craque Maradona é uma divindade, como comprovam em “Santa Maradona”. Os saudosos dos bons tempos da MTV Brasil sempre se recordam do campeonato de futebol entre artistas da emissora , o “Rock Gol”, apresentado por Marco Bianchi e Paulo Bonfá. O impagável torneio rolou entre 1995 e 2008, e foi  responsável por mudar o nome de Toni Garrido, do Cidade Negra, para “chiliquenta”, por causa dos chiliques do cantor nas partidas. Bonfá e Bianchi ainda apresentaram o “Rock Gol de Domingo”, programa que cobria a rodada esportiva da semana, sempre com convidados do meio futebolístico e musical. Se não conhece corra até um Youtube mais perto de você.

 

Leia:  À Sombra das Chuteiras Imortais (1993) – Nelson Rodrigues

Compilação de setenta crônicas esportivas publicadas por Nelson Rodrigues entre 1955 e 1970 na extinta revista Manchete e em O Globo. Organizado por Ruy Castro, autor da biografia de Garrincha.

 

A Pátria em Chuteiras (1994) – Nelson Rodrigues

 

Continuação das crônicas futebolísticas, que se estende até 1978, período em que o Brasil voltou, segundo o autor, a ter o complexo de vira-lata.

 

Estrela Solitária (1995) – Ruy Castro

Rico em texto e fotos, a história humana de Garrincha envolve o leitor e vai muito além do ídolo, passando por sua relação com a cantora Elza Soares, a luta contra o alcoolismo, e claro, os  dias de glória até o apagar de uma estrela.

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