Maranhão, 5 dias nas portas da Amazônia

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Por Almir Santos

 

Localizado no extremo noroeste do Brasil, o Maranhão tem características típicas de um estado nordestino, mas com forte influência da região norte, daí o subtítulo dessas memórias que ainda estão frescas, (estive no estado entre os dias primeiro e cinco de Abril, dia 6 não conta, foi só aeroporto, conexão) e que agora compartilho, sem a pretensão de fazer um diário de bordo, como fiz na época das férias em Minas Gerais. Acontece que cinco dias é muito pouco para conhecer São Luis, São José de Ribamar (cidade da região metropolitana da capital) e Barreirinhas, onde ficam os Lençóis Maranhenses. Isso sem falar que ao longo da viagem as dicas de novas cidades e passeios vão demovendo a ideia de fazer um diário, uma vez que sairia incompleto.

 

 São Luis, a chamada Jamaica brasileira

 

A antiga capitania hereditária portuguesa ficou abandonada pelos lusitanos até ser definitivamente colonizada pelos franceses, a partir de 1612. A cidade ainda sofreu uma invasão holandesa em 1641, sendo definitivamente expulsos por Portugal em 1644. Hoje no centro histórico, que é tombado pela Unesco como patrimônio cultural da humanidade, predomina a arquitetura portuguesa, com suas paredes de azulejos. Uma pena que o centro histórico não esteja mais bem cuidado, isso só aumentaria o turismo, que também é afastado pelos índices de violência. Vale a pena conhecer São Luis, mas fique ligado.  Destaque para o Palácio dos Leões, sede do governo estadual e a Rua Portugal, onde ficam alguns dos mais belos casarões. O teatro Arthur de Azevedo e um passeio pelo cais na Avenida Beira Mar também merecem uma visita. Fiquei hospedado na Pousada Portas da Amazônia, local que é inclusive bastante usado para ensaios fotográficos e até gravações de programas de tv. A pousada fica em frente ao “Rodrigo CD’s Maranhense”, a grafia é assim mesmo, mas o importante é a simpatia do Rodrigo em mostrar vinis, k7s, cds de reggae dos mais variados, e inclusive muita música regional, as famosas toadas de bumba meu boi.

O reggae predomina no gosto musical dos locais há muito tempo. Há teorias de que os nativos sintonizavam as rádios caribenhas desde os anos 70 devido a localização geográfica, então a ilha já curtia um calipso, um mambo, um ska, até chegar no reggae. Outra possibilidade é que desde os anos 50 e 60 os locais já conheciam os ritmos do caribe por estarem próximos ao Suriname e a Guiana Francesa, e há relatos de que rádios AM daquela época já capitavam esses ritmos. Formada no meio dos anos 80, a Tribo de Jah, são os chamados heróis locais. Lembro de uma matéria na revista Bizz apresentando a banda, informando que era composta por músicos cegos, com exceção do vocalista, que enxergava de um olho. “Em banda de cego quem tem um olho é vocalista”, frisou sagazmente o repórter da extinta revista, parafraseando o ditado popular “ Em terra de cego quem tem um olho é rei”. Quando for a São Luis, não deixe de conhecer o Cafofinho da Tia Dica, o melhor restaurante do centro histórico. Peça um Arroz de Cuxá, prato típico maranhense, acompanhado de uma tiquira de aperitivo ( cachaça regional a base de mandioca) e um Guaraná Jesus.

Uma dica cultural super maneira é a franquia local Muleque Té Doido, comédia trash ambientada em São Luis, onde uma banda de músicos acaba se envolvendo em mil confusões e precisam salvar a cidade de ser destruída por uma serpente gigante, em cumprimento a uma maldição centenária. Misturando comédia romântica, aventura, muito humor com as lendas folclóricas da cidade, o filme lançado em 2014 foi a maior bilheteria da região, desbancando blockbusters de hollywood. O idealizador do projeto, o músico, ator, cineasta e roteirista Erlanes Duarte já produziu mais duas sequências ( Muleque Té Doido 2 e Muleque Té Doido – Mais Doido Ainda).

 

 

São José de Ribamar

Localizada na região metropolitana de São Luis, a cidade leva o nome do padroreiro do estado e é caracterizada por intensa peregrinação de católicos que visitam suas igrejas. Mas tem também seus atrativos naturais, como as belas praias. Eu queria conhecer Juçatuba, mas como só poderia ficar um dia na cidade, pois no dia seguinte iria para Barreirinhas, fiquei apenas no centro, visitando uma prima. As praias ficam para a próxima, se Deus quiser. Conheci apenas a praia de Ribamar, degustando caranguejos e demais frutos do mar. Depois recomendo um passeio pela baía de São José. Uma curiosidade é que diz a lenda que a igreja foi reconstruída duas vezes, e só ficou em pé definitivamente quando ficou de frente para o mar, conforme o desejo do padroeiro. A pequena e bela igreja ainda tem as cores do Guaraná Jesus, patrimônio maranhense já conhecido nacionalmente. A Coca-Cola não conseguindo desbancar o refrigerante da região acabou comprando a marca para não ficar no prejuízo no estado. Outro atrativo turístico é o Monumento a São José de Ribamar, em frente a igreja, e que serve como um mirante.

 

Barreirinhas

 

Principal porta de entrada para os Lençóis Maranhenses, Barreirinhas oferece uma grande variedade de pousadas, resorts e agências de turismo que levam para as famosas dunas. Eu só tive tempo de conhecer a Lagoa Bonita, talvez a mais fotografada e conhecida, mas são muitas as opções de passeio ( Lagoa Azul, Lagoa da Esperança), e além das dunas é possível desbravar o Rio Preguiças parando em alguns povoados, sendo o mais comentado o de Caburé, uma ilha cheia de atrativos naturais e com bastante macacos, que já não podem mais ser considerados selvagens, completamente adaptados ao ser humano. Muito comentado também é o povoado de Atins, mais isolado.  Assim que os ônibus chegam na cidade, os guias das agências já fazem contato perguntando se o turista já tem pousada, se oferecendo para levá-lo gratuitamente ao seu destino, quando ele já tem reserva. Em troca já deixam um cartão e tentam já fechar um pacote de passeios na hora mesmo. Ainda é possível fazer passeio de bóia cross, quadriciclo e um sobrevoo pelos lençóis.

No caminho para Barreirinhas, passamos por Morros, onde alguns turistas estrangeiros já desceram, e ouvi comentários sobre as praias de Tutóia, também na região. Na hora combinada para o passeio o jipe vem buscando os turistas nas próprias pousadas e após o tour entregam cada um em seu local de origem. Em poucos minutos chegamos a uma balsa, que atravessa um lago, e na outra extremidade começa um caminho de aproximadamente 45 minutos mata adentro por estradas de terra sinuosas, como se estivéssemos disputando um rally dos sertões, passando por alguns povoados isolados, até chegarmos  no nosso destino. Nesse local os jipes estacionam em frente a alguns quiosques em forma de cabanas indígenas que servem tapioca, vendem castanha e artesanato local. Deixamos os chinelos no jipe e o nosso guia nos avisa para não deixar nada nas dunas, pois todos são sujeito a multa, uma vez que se trata de uma reserva de proteção federal. Francisco, nosso guia também nos conta que a extensão total dos Lençóis, incluindo as regiões em que não é permitido o passeio turístico,  é equivalente a cidade de São Paulo. O principal desafio é vencer uma subida de uns 60 metros por uma enorme duna de areia, com o auxílio de uma corda, e ao chegarmos extenuados somos recompensados pela visão que mais parece a de um outro planeta, haveria água em Marte? Na Lagoa Bonita em um percurso de uma duas horas e meia fazemos umas três paradas para banho nos lagos e só voltamos com o pôr do Sol e várias fotos. Na volta, mais um rally, agora sob a luz da Lua. Depois é só tomar um banho e curtir a noite de Barreirinhas. Se ainda não foi, afirmo que Barreirinhas é top.

 

 

 

 

 

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