Lindo Sonho Delirante

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por Almir Santos

Bicho, se você se liga em um som empoeirado como aquele rock viajandão que misturava elementos como musica clássica e sons regionais, associados a letras que eram uma verdadeira viagem por novas experiências no campo da expansão da mente e da consciência, você já transou um som psicodélico. E se ainda habita o planeta Terra e não colocou as mãos no livro “Lindo Sonho Delirante”, está completamente por fora da parada. Ok, vamos voltar a um texto mais condizente com os dias atuais, mas a verdade é que desde meados de 2016 o jornalista Bento Araujo reuniu uma compilação de 100 discos brasileiros psicodélicos essenciais, daqueles que você merece ao menos dar uma conferida, alguns são obrigatórios ter na coleção e dar uma garimpada nos sebos e feiras de vinis. Para quem não sabe, Bento foi o editor da Poeira Zine, revista especializada em classic rock que era distribuída em lojas especializadas como as da Galeria do Rock em São Paulo e diversas lojas descoladas pelo Brasil, e também vendida via assinatura pela internet. O livro cobre o período entre 1968 a 1975, onde álbuns, coletâneas e compactos são resenhados pelo autor, com textos em português e inglês, atendendo ao interesse dos gringos pelo som psicodélico do nosso rock brazuca. Com toda justiça todos os discos da fase clássica dos Mutantes constam da compilação, bem como os cânones da Tropicália, que foi o movimento que mais soube digerir o que os Beatles, Rolling Stones, Jimi Hendrix, The Doors, Janis Joplin, Jefferson Airplane entre outros estavam fazendo naquele final de anos sessenta e traduzir essas informações como uma linguagem brasileira. Então não poderia faltar o disco manifesto do movimento “Tropicália ou Panis et Circencis” que reuniu Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa, Tom Zé, Os Mutantes e o maestro Rogério Duprat. Mas o grande barato do trabalho do Bento é a pesquisa de bandas obscuras que lançaram apenas alguns trabalhos no período e seus discos são verdadeiros itens de colecionador. Alguns discos são hoje altamente procurados por aficionados por raridades, como é o caso do compacto “Lindo Sonho Delirante”, do cantor Fabio, que dá nome ao trabalho.

A bolachinha já entregava na capa, com as iniciais do título da música LSD, em uma alusão a droga que estava em alta no underground na época, difundida pelo movimento hippie, e que foi proibida quando avançadas pesquisas atestavam os efeitos benéficos da substância para a expansão da mente. É claro que também não podemos nos esquecer que nem todas as viagens foram tão boas, como o que aconteceu com o mutante Arnaldo Baptista e o líder do Pink Floyd Syd Barret. Em meio a toda essa revolução musical, havia uma consciência de libertação de costumes e críticas ao sistema, especialmente contra a guerra do vietnã, ao machismo, ao racismo etc. “Lindo Sonho Delirante”, a música , estava antenada ao que acontecia no mundo e mandava sua mensagem pacifista ” O pentágono não sabe/Que agora é hora de amor”. Hoje também muito cultuada é a trilogia psicodélica do cantor romântico e ícone da Jovem Guarda Ronnie Von: Ronnie Von (1968), A Misteriosa Luta do Reino de Parasempre Contra o Império de Nunca Mais (1969) e  A Máquina Voadora (1970). Isso sem falar que foi Ronnie quem batizou de Mutantes a banda de Rita Lee e dos irmãos Baptista.

Outra “pérola escondida” é “Geração Bendita”, do Spectrum. A banda de Nova Friburgo ficou incumbida de fazer a trilha sonora do filme “È Isso Aí, Bicho”, sobre uma comunidade hippie. Mas a ditadura militar acabou com o projeto do longa, o que hoje só faz aumentar o culto a trilha do filme não realizado.

Poeira Zine ( endereço do portal onde você pode encomendar o livro, bem como edições da extinta revista Poeira Zine ainda em estoque):http://www.poeirazine.com.br/

 

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