Lark’s Tongues in Aspic

02

Lark’s Tongues in Aspic – King Crimson (1973)
Por Almir Santos

Bem-vindos aos anos 70. De volta a uma era em que os Dinossauros ainda caminhavam sobre a Terra. Mas estamos falando da fauna da música pop ocidental, um período em que o rock vivia a rebordosa do fim do sonho hippie e os sobreviventes dos anos 60 agora eram digeridos pelo sistema e se entregavam a dor e a delícia de viverem no mundo material. Uma época dominada pelo Led Zeppelin estampando o logo de sua própria gravadora, a Swan Song, na fuselagem do seu jato particular, fazendo shows pela América de costa a costa, os Rolling Stones frequentando o High Society e o Pink Floyd vendendo milhões de copias do clássico Dark Side of the Moon.

Até mesmo o outrora underground rock progressivo estava no top das paradas, com os trabalhos do período do já citado Floyd e de outros medalhões como o Yes e o Genesis firmando o domínio do prog rock.

Mas havia um “ bicho de sete cabeças” nesse meio que se recusava a se entregar aos “deleites” do sucesso fácil e ainda se aventurava em busca do desconhecido, estamos falando do King Crimson. Liderados pela mente atormentada do guitarrista Robert Fripp, o Crimson estreou em 1969, abrindo para os Rolling Stones no show em memória ao guitarrista Brian Jones ( leia mais no link do “In the Court of the Crimson King”, abaixo). Agora estamos mais precisamente em 1973 e o Rei Escarlate está em vias de gravar seu quinto álbum e vemos que o único membro original é o incansável Fripp.

9c88d25efee37cde7f4ce518c783d780.1000x752x1-300x226

O primeiro “soldado” a integrar a nova encarnação da banda é o percussionista Jamie Muir, músico vanguardista que se encaixou como uma luva na sonoridade caótica do novo Crimson. Ao vivo, Muir se vestia como um homem das cavernas, cuspia sangue na plateia e também tocava bateria, formando um combo poderosíssimo com o novo baterista, Bill Bruford, que deixou o Yes no auge do sucesso, após os aclamados trabalhos “Fragile” e “Close To the Edge”. Bruford alegou que já havia aprendido o que podia com o Yes e queria sair daquela zona de conforto e crescer dentro do caos da nova trupe. Para o baixo e voz, Fripp recrutou John Wetton, amigo dos tempos de faculdade e que quase foi o primeiro vocalista da banda. O baixo vigoroso ( Wetton era famoso por quebrar cordas do contrabaixo devido a intensidade com que tocava, e estamos falando de cordas de contrabaixo), o vocal que não deixava saudades de Greg Lake e Boz Burrell e a paixão pelo improviso, foram mais um acerto entre as escolhas do guitarrista para sua nova criação. Em meio a esse turbilhão sonoro inclua um violinista, que também tocava teclado, evocando melodias sublimes ( ao vivo Fripp também atacava nos teclados), compondo paisagens lisérgicas em meio ao caos dos outros quatro alucinados instrumentistas. Seu nome: David Cross. Esse time foi o quinteto que deu vida ao Lark’s Tongues in Aspic.

São três temas instrumentais, a faixa título, que é dividida em duas partes, iniciando e fechando o álbum e “Talking Drum”. Em meio a paulada sonora, pois o progressivo do Crimson flertava também com o crescente heavy metal, jazz e o que viesse a cabeça, uma balada em que John Wetton mostra seu talento como vocalista, a tocante “ Book of Saturday”. Lá pelo meio “Exiles” nos leva para uma viagem a uma terra distante de nossas memórias, hora de regozijar na competência instrumental até a chegada de “Easy Money”, uma das melhores canções do Crimson em toda sua discografia. Infelizmente essa formação, que seria a definitiva do grupo, só durou um disco.

Durante a turnê do Lark’s o percussionista Jamie Muir se  machuca, quando um gongo cai em cima de seu pé esquerdo, fazendo com que o músico abandone a banda e o meio artístico após a recuperação, alegando estar farto “dos excessos de luxúria e bens materiais do mundo do rock”, decidindo se converter ao Budismo, se tornando monge em um monastério tibetano na Escócia.  O quarteto remanescente ainda registraria o álbum “Starless and Bible Black”, em 1974, e com a  posterior saída de David Cross, a banda registrou o também clássico “Red”, também em 1974, já como um trio. No mesmo ano, Fripp chegou a conclusão de que o Crimson já havia dado o seu recado e decide encerrar os trabalhos da banda, só voltando nos anos 80, com uma nova sonoridade, antenada aos novos tempos, mas isso já é outra história.

P.S: Este artigo é dedicado a memória de John Wetton, que no último dia 31 de Janeiro foi morar do outro lado da Matrix.

Fonte: revista Poeira Zine nº 12 ( Junho/Julho de 2006). Valeu, Bento Araújo.

 

Ouça também: The Great Deceiver, box set com quatro CD’s ao vivo cobrindo as turnês da banda entre 1973 e 1974.

King_Crimson_The_Great_Deceiver

Leia também:  A resenha do Alex Antunes para o trabalho de estréia do Crimson, o também fundamental “In the Court of the Crimson King”, que foi Discoteca Básica da Bizz:http://www.collectorsroom.com.br/2016/01/discoteca-basica-bizz-006-king-crimson.html

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *